Oi, eu sou a Elizabeth, mas pode me chamar de Beth. Gostaria de falar um pouco sobre mim. Não sei se consigo. Na verdade não tenho uma vida muito interessante. Nasci em Miracema, interior do Rio. Vim para capital com 18 anos para cursar ciências sociais na Universidade Federal. Lá conheci o Mendonça e o Luiz Paulo. Eles eram estudantes de jornalismo e cheios de idéias com as quais eu me encantava. Queriam fazer parte da democracia brasileira e lutavam para isso. Eram veteranos, mas ainda assim, nos tornamos grandes amigos. Uns 2 anos depois, eles foram presos numa manifestação da UNE na Cinelândia. Passaram-se vários dias sem que ninguém soubesse deles. Quando o Mendonça foi solto, já não sabia do Luiz Paulo e nunca mais o vimos. Isso nos marcou profundamente. Ao Mendonça principalmente, porque o tinha como um verdadeiro irmão. Às vezes tenho a impressão de que ele nunca se recuperou 100%.
Desde que conheci o Mendonça sou louca por ele. Tive épocas em que esse amor foi sufocado. Quando eu conheci o João e nos casamos, por exemplo. Fomos muito felizes enquanto estivemos juntos. Ele era inteligente, carinhoso, sedutor e mais que tudo, tinha um quê de revolucionário que sempre alimentou meus sonhos. Eu não era apaixonada por ele, mas via nele um grande companheiro para a vida. Um dia, no final de 84, indo para Curitiba a trabalho, sofreu um acidente fatal. Foi a pior época da minha vida e o Mendonça foi quem mais me segurou nesse momento. Foi quem me tirou do fundo do poço. Aí as coisas desandaram. Parece que aquele amor que eu senti no passado voltou mais forte, diferente, mais intenso. Daquele tipo de amor incondicional. Enfim...acho melhor não falar muito nesse assunto. Isso é o tema recorrente em minhas sessões de terapia, que por sinal, faço há 7 anos.
Hoje vivo com meus gatos, que são como filhos para mim. Costumo chamá-los de Família Beatles. O John, Ringo, George, Paul e a Yoko. Como me dão dor de cabeça! Mas no fundo eu adoro e me divirto.
Ah, claro, como poderia não mencionar. Trabalho com o Mendonça no seu jornal, desde a criação, há 20 anos. Sempre trabalhamos para sermos diferentes dos grandes, mas parece que isso nos últimos tempos nos colocou numa tremenda enrascada. A crise está aí e ninguém sabe o que fazer.
Acho que o melhor é acompanhar o andamento dessa história e ver onde tudo isso vai dar, porque eu estou de fato, muito perdida.
Esse texto faz parte da concepção da minha nova personagem: Beth.
Beth é parte integrante do PROJETO 92. Peça que está sendo concebida pela Caratapa Produções. Sem um nome ainda definido, esse projeto já começa a nascer e começa a fervilhar a cabeça e o coração dos atores, diretor e dramaturga que decidiram encará-lo.
Fazer parte de um espetáculo desde a sua base é angustiante, desafiador e um grande e novo aprendizado.
Espero vê-los em março de 2013 na Cia. do Atores!!


